OFICINA DOS EXPANTOS

Olá, assombrações!

A Academia Fantaxma tem trabalhado nos últimos dois meses em um projeto chamado Oficna dos Expantos, que teve início com uma palestra expantosa do Edwar Castelo Branco sobre Torquato Neto.

De lá pra cá, foram feitas leituras de Rimbaud e uma oficina virtual de fanzines que resultou no Instagram @expantos (Oficina dos Expantos), com publicações de alguns fantaxmas.

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Seguem os zines dos Fantaxmas:

VIDEOZINE – RENATO MENESES

Dança (Isaac Sousa)

Dance para mim, bailarina de argila, boneca de turmalina, feiticeira de cristal.

Dance na noite em que as estrelas cantam. Dance solta, felina, bandeira branca. Dance água, vapor, penumbra – dance camas e ensolarados lençóis.

Dance com suas curvas (fogo & brisa). Dance nas insólitas madrugadas – insônia, lua nova, instinto. Dance lobisomem, cataclismo e álcool – dance, absinto, tempestade e pó.

E se no corpo treme a chama, dance – dança de fogo, salamandra. Se de cabelos me amarra, dance – dança de anéis de Saturno em caracol. Se os teus joelhos me cravam o tronco, dance – Vênus em hexagrama, rainha escrava em delírio de fuga – dança de astro vespertino em colisão.

Se tuas unhas me gravam rangidos. Se teus lábios me sopram nos o espírito de deus. Se tua voz sibila e fala segredos de espelho. Dance para mim com seu olhar perdido. Dance leve em febre enquanto preparo um café. Dance até se eu não estiver olhando. Mas dance, dance de novo, e depois dance para mim.

Dance com seus olhos de poema sobre meu corpo bailarino ébrio. Dance de pés descalços quando tuas roupas fogem – de seios nus, de pelos nua, de risos rica. Rouca de alucinações e sustos – dance úmida e lisa, beije-me em rodopio de feitiço. Pise-me com teus pés de tempo & ave. Dance vibrações quando eu te invadir em êxtase. Dance a música dos horizontes: sem casa e sem família, sem amigos e sem nome, sem sexo e saída, sem pretextos e sem nada. Dance a dança das pedras, das árvores, das matas. Dance, grite e voe, dance o cio dos animais. Dance a sinfonia dos cães, dance o ritual dos gatos, esta é uma noite encantada e as estrelas do céu profundo te convidam para dançar.

Deslize em meu suor que é ritmo: morte e vida giram borboletas no corpo do equilibrista. Não existem escolas nem passos, não existem caminhos nem desvios, não existem sérvios nem.troianos, existe a dança e você dança, a noite urra e você dança, eu só existo nessa dança… E você dança para mim.

Expantos

O coletivo Academia Fantaxma está trabalhando em sua primeira publicação: o panfleto Expantos, que reunirá  em sua primeira edição, poemas de nove fantaxmas. A publicação não-oficial e feita que nem punheta, com as mãos, vai circular na cidade junto com uma série de intervenções. Quando o relógio bate  a meia-noite, os fantaxmas se preparam para assombrar a cidade.

O poeta deslembrado (Renato Meneses)

(O poeta Vespasiano Ramos é um fantaxma, duplamente fantaxma. Esquecido em Porto Velho-RO, no cemitério dos Inocentes, também fora deslembrado em plena praça pública, que leva seu nome, em terra natal. Parece reclamação de babaca, mas uma gente que não resguarda seus poetas é uma gente incivil. O poeta merecia pelo menos um busto no lugar onde nascera (largo da Igreja de São Benedito, em 13 de Agosto de 1884), em nome de tantos versos dedicados com voragem em descrever a alma humana. Vespasiano Ramos continuará um fantaxma cá entre nós, devido ao nosso estado de ignaros; entanto, um fastaxma inesquecível para as pedras seculares que descansam sob o asfalto dos parvos tempos atuais.

Inversos (Zau Cunha)

Você é, pra mim, uma série de vírgulas
Com pausas e continuações
Projeções e planejamentos
Complexidades e harmonias
Requintes e exigências
Atalhos e pormenores
Às vezes enfadonhos
Às vezes belos
De prima necessidade
A única coisa que, a seu modo
Esse, redundante, sublime
Permite dizer isso
Que timida e discretamente me vem
Que me veio

Isso, rubro, um rubor que chega

Que chega e fica, que finca

Que quero deixar (entre parênteses)
Que quero…

___ que tinha de vir seguido duma adversativa
porque, você sabe, nada é perfeito

Nada é perfeito?
(…)
Nada, nada é perfeito?
Talvez nem tudo seja perfeito

Sim, isso

Nem tudo é perfeito, tem coisas que…
Esquece

Nem você é…

Ainda que me lembre duma natureza sublime e negra
Da penugem suave, lábios moles
Duma particular consistência
De sensíveis olhares úmidos de beleza
Talvez de lágrimas
Dos dentes tão brancos, da moral tão amarelada
De nossos corpos juntos, intensos
De nossa fragrância fundida, três-em-uma…
Ainda que nosso beck não tenha acabado
Que seja três e meia da tarde
Que tenhamos a praia e amanhã seja feriado

Talvez eu seja, deveras
Imperfeito até o ponto
De a perfeição ser uma máxima fácil
Por não começar o que termino
Cantar ao contrário
Respirar pouco, pensar lento

Tu, com tuas ciências exatas
Calcula tudo que faço e sabe
Deveras, sou frágil, fato imperdoável

Eu e tu, lado a lado
Assim te tornas perfeito, é claro

Mas como antes falava, de vírgulas
E não me permito te abreviar, só dar pausas
Mudar os sentidos, te tornar palatável
Vou te escrevendo, usando poucos pontos e
Ainda que seja independente de mim
Talvez nunca use um ponto final

Caminhos e Luta (Napoleão M. B. Silva)

“Quem conhece a dor, conhece tudo.”
Dante Alighieri

Um sábio escolhe seus caminhos, fala o bom senso, assim como um guerreiro escolhe suas batalhas, como é na lógica da guerra. No entanto, como podem os homens comuns, que não podem escolher, e muitas vezes costuram caminhos tortuosos, decidir qual deve ser sua batalha?

Falamos em monstros e terror para encontrarmos um momento de distração, fuga do real, por assim dizer. Mas em nosso cotidiano os monstros são mais reais: fome, desemprego, insegurança. O terror aparece sob várias formas: miséria, desespero, pânico. Como às portas do Inferno de Dante, nossos homens e mulheres encontram em sua frente por repetições sem fim: Ó, vóis, que entrais abandonai toda a esperança.

O “entrar” conjugado no texto indica a incapacidade de fugir do que o aguarda adiante. Esse é o momento em que homens e mulheres, jovens e idosos, parecem carregar anos em suas costas, cabelos adquirem o branco do esquecimento, mas é o contrário, as lembranças que não param, parecem sugar a vida e então esses fios, que lembram por um instante os fios cortados pelas parcas, caem… Como se já fosse o chamado da impotência, a preparação para a  tumba e o olvido.

O imperativo “abandonai” lembra nossas leis, essas que criamos para nos regular naqueles momentos em que deixamos as paixões, e não a lógica, dominar. Leis essas que nesses dias parecem prisões da vontade. Lembram as correntes impostas àqueles que atravessaram o Atlântico em tumbas de madeira, banhadas com suor, urina, fezes e, como se isso não fosse suficiente, extrair, veio o sangue…

Como pragas, ou saídos da criação de Robert Kirkman, zumbis movidos pelo instinto de sobrevivência surgem e dizem ser a “voz do povo”, dizendo o que os homens e mulheres comuns devem escolher como caminho e luta, sem lhes deixar claro que a opção cabe a cada um… É, pensei nisso agora mesmo, acabei de responder à pergunta feita ao final do primeiro parágrafo. No final, DEPENDE DE CADA UM… Assim como “só pode haver um”… desculpe não consegui resistir.

Parece que me esqueci de escrever algo, você sabe o que é? Ora, não se zangue comigo, sim? Estou escrevendo esse texto, mas não sou completamente seu autor. Ele me veio nesta noite como um sussurro. O fiz como se estivesse em um sonho em que tudo faz sentido, mas ao acordar parece que não conseguimos juntar as informações e elas acabam se perdendo. Penso que o que escrevi veio antes de mim, se manifestou em meu inconsciente e achou as brechas necessárias para meu consciente, tomou meus músculos e se inseriu nesta página como algo vivo, algo que estava vivo antes de eu o perceber. Sei, concordo: É um desabafo. Obrigado pelo tempo que passou com essas palavras, você as faz vivas e isso é uma alegria…

16/05/2016